● Hojesexta, 12 de junhover calendário →

Campanhã

Hoje o café fechado faz-me sentir

falta da mesa estrategicamente a um canto

e de um verso onde encostar a cabeça.

A senhora da barraquinha da fruta

vende-me os últimos figos secos

com o coração de noz

e dá-me por troco palavras amigas

que me acompanham até à linha 7

onde um rapaz exemplar transporta a Maria Callas

debaixo do braço como um qualquer instrumento

até a depositar sobre a plataforma onde agora somos quatro

contando com a rapariga de Erasmus

que fixa as gaivotas através de uma lente

trazendo-as do topo da Moagem Ceres

até muito perto

entretidas com uma matéria informe cujo fim muito mau

se transforma entre os seus bicos em muito bom.

Penso nessa tensão como uma corda rouca

fumo um imaginário cigarro

com gestos largos e lentos

como quem deseja prolongar o amor para além da dança.

A locomotiva mãe vem buscar a açafrão e a coração de boi

juntas seguem como um animal articulado.

As gaivotas voam para outra hora.

Comprido, cinzento, com pelagem de rato

continua Janeiro como o pior dos meses

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