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Ao poema pensei chamar-lhe

Ao poema pensei chamar-lhe

um comboio depois de Auschwitz

mas não, seria soberba minha

apanhar-lhe boleia

quando o que queria

era dizer do meu amor pelos comboios.

Debruçava-me perigosamente

desse terraço sobre Campanhã

onde a Matilde me denunciava à minha mãe

enquanto lhe compunha uma onda alta

no cabelo que a tornava grácil, esbelta.

Descíamos Pinto Bessa e os saltos altos

enterravam-se-lhe entre o quadriculado

da calçada, mas ela gostava

o meu pai também

contornava-lhe melhor a perna

e o mundo desenhava-se na perfeição.

Nada sabia dos comboios

incapaz de lhes reconhecer

qualquer indício torcionário

amava-os nessa ingenuidade

da pouca terra ser muita

e me levar para bem longe

como gostava.

Não que não gostasse de ter asas

mas nunca senti que as do avião pudessem ser minhas.

Por isso declinava-o como meio rápido

gostava da lentidão

por exemplo, com que a Denise

(mãe brasileira, pai alemão)

delineava o “a” e o “r”

ou o modo como a Milita

me tirava as medidas

para o meu novo casaco de fazenda

azul.

Tinha crescido um palmo e meio

e a mão do meu pai então enorme

mostrava que o antigo já não servia.

Era uma menina sensual

e não sabia

assim como que quando nascia

Anne Frank faria 37 anos.

Ficava-me a ver comboios

como quem vê navios.

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