Tríptico com hotel e sirene
I
Esta avenida, os prédios complacentes
Que resistiram a uma e a outra guerra:
O tempo deles é o instante presente
Em que escrevo, e mais nenhum. Nada esperam.
Dedicam-se à serena operação
de preencher um pedaço de terra
com aquela absoluta perfeição
dos que, não tendo opção, jamais hesitam.
(Aqui deve haver alguma lição,
dessas que inspiram mudanças na vida,
feita algum tronco truncado de Apolo.
Mas tudo permanece na avenida
como antes – exceção feita a um solo
de sirene, dissonante e insistente,
ao qual não chega a oferecer consolo
a luz que se acendeu no prédio em frente.)
II
Esta é a hora inaugural da noite.
Toda a energia esbaldada do dia
Agora se recolhe compungida
Por trás de persianas. Seis e oito.
Escurece. Os prédios olham de esguelha
pro trânsito feroz, domesticado
a custo. Uma sirene desgrenhada
se esvai, desafinando. Seis e meia.
Alguém no quarto ao lado liga um rádio.
No corredor, uma risada breve
responde a um inaudível comentário.
Mais risos: a noite promete.
Lá fora está escuro – estamos em maio,
O inverno se aproxima. Quase sete.
III
Hotel. Sexto andar. De
súbito, a sirene – risco
vermelho na tarde.





