O ideal e o real
Dois universos!… Um, o que dá forma e sonha
Nossa mente; abre, e rasga, e arqueia, e azula, e cria;
E esse outro, em que se inverna, essa cava medonha,
Que guarda uma ilusão de cada extinto dia.
Um é obra gentil da vária fantasia,
Cheirosa, alegre, doce, esplêndida, risonha:
Outro, a fome, a miséria, a lágrima sombria,
Onde escarra a traição a esquálida peçonha.
Quero o primeiro: esta alma ardente, ansiosa, aflita,
Dele, para viver, dele só necessita,
E tem só nele luz, céus, olimpos, que ver.
Quando a taça de fel a angústia humana traga,
Não é pelo ideal, que nos faz rir e embriaga,
É pela luta amarga e austera do dever.