● Hojesexta, 10 de julhover calendário →

O cobridor

À entrada do metro está o cobridor de damas

e cavalheiros

de pé perna cruzada a coçar os testículos

e a fumar para o chão em escarros

pouco límpidos.

O metro pede que chova em cima

do cobridor

que encena a sua rábula cinéfila

e leva aos tomates uma estranha fome

de afecto,

melancólica.

Já viajei de metro

e eu próprio

já supus que nos meus testículos

o mundo vinha adormecer

com as mãos suadas.

Às vezes

trocávamos de papel,

e ninguém sabia quem cobria quem,

cobertos éramos todos

por uma tristeza

austera

que o metro punha no ar

irrespirável.

Hoje, tomates são só de importação ou virtuais.

E os cobridores

uma espécie em vias de extinção

na esquina fluorescente do dia descaído

e na cabeça da noite que já nem dá por nada.

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