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Sita

estava sentado aberto a um poema

e apareceu a minha mãe.

eu apareci ao lado dela.

acho que foi com a minha mãe que aprendi a olhar

o olhar dos velhos

as mãos bonitas dos velhos

dar beijinhos nas bochechas

das pessoas que chegavam

-foi a minha mãe.

bater à máquina e apreciar

o sino

no fim da frase,

poupar a fita, recuar a fita

bater as provas dela da quarta classe

gostar do cheiro da fita

construir textos na máquina-de-escrever

-foi ela

[um dia vieram as alforrecas picar-me o corpo todo

incluindo o pirilau – dancei bungula!]

a respeitar os medos dela

e os meus

e os barulhos

e os sonhos

- foi a minha mãe que me ensinou.

a manejar a língua portuguesa

fazer redacções bonitas

-foi ela.

isso da simplicidade de dentro e de fora

ela me transmitiu

nas bordas do dia-a-dia

o gosto do café encontrei na chávena dela;

whisky também.

só não aprecio o modo de ela devorar

cabeças e olhos de peixe.

antigamente como agora

autorizo qualquer bitacaia

a tentar residência nos meus pés

mas só quero a minha mãe

para fazer o despejo

[há qualquer coisa de ritual no episódio das bitacaias,

comichão e tintura d'iodo incluídas...]

uma tarde quis fazer um poema

para a minha mãe – e fiz.

agora só preciso de uma bitacaia

para celebrar o acontecimento.

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