O roupão de Balzac
Queria ser
o roupão de Balzac. O
mesmo que Rodin
esculpiu
toscamente, em gesso,
armado todo ele
sobre arames
mal disfarçados,
branco, sujo
da patine amarelada
do tempo. Estar
assim muito
quieto, diante
do tempo todo,
suspenso de uma
fragilidade branca,
escondendo o que
restou de um
corpo que já
lá não está,
assente sobre
pés (de barro),
sem mãos, e sem
cabeça. Permanecer
hirto, grave,
disforme até,
lembrado da presença
desse corpo
que se foi
antes mesmo de chegar
a envolver-se no
tecido rugoso,
abraçando o vazio
tal se abraça
a carne. O
roupão de Balzac,
cingido como se
à saída do banho,
ou de noites de
insónia, dos excessos
da comédia humana,
diante de mim
chama-me. Pede
-me para entrar
nele, qual
quarto à noite,
desaparecer nele,
fundir-me nele e
ser para sempre
aquele
vazio entrevisto
entre as golas
gastas, roídas
pelo tempo, pela
usura. Resto de corpo
a que cortaram
as goelas e
decapitado,
escrever-lhe as
memórias.




