Ítaca revisitada
O florescer
mais perfeito do teu
corpo — pensei,
enquanto contemplava
silencioso, na nudez,
marcas que nela
o tempo, a usura, não
eu, foram
tecendo — foi
meu, que tanto assim mo
ofereceste, gloriosa
estação. Queimaram
-no meus olhos,
entre imagens. Foi
festejado, amado,
celebrado, como
se num altar,
esculpido golpe
a golpe na cegueira,
por estas mesmas
mãos, quando o
abraçaram,
ébrias, em
noites de perfume,
incenso, incêndio. Em
suas águas me perdi,
vezes sem conta,
aprendendo o inocente
despudor da entrega
confiada. Agora,
ainda sob o olhar
lúcido do amor, julgo
ter sido assim
que Ulisses viu,
abandonadas, as ruas
e praças de Ítaca,
quando regressou. E
sob as rugas das pedras
gastas e dispersas,
que haviam sido
antes sólidas, polidas
casas, muros, fontes,
templos ou estátuas,
fortalezas sobranceiras
enfrentando o azul
do mar, quis rever,
por um momento,
e talvez
no seu brilho
mais exacto, absoluto,
o que a fizera outrora
cobiça dos exércitos,
o alvo de invejas várias
de outros reinos. E
ali se deteve,
melancólico, como
se, sob o silêncio
grave, pesado,
dessa tarde,
alheado do mundo
e de navegações,
pudesse ainda ouvir,
distintamente, dele
subindo até ao ar
quente e saturado
da ilha
abandonada,
o clamor das crianças,
correndo céleres
pelas encostas
verdejantes, em
desvairadas, imprudentes
correrias.




