● Hojesexta, 10 de julhover calendário →

Ítaca revisitada

O florescer

mais perfeito do teu

corpo — pensei,

enquanto contemplava

silencioso, na nudez,

marcas que nela

o tempo, a usura, não

eu, foram

tecendo — foi

meu, que tanto assim mo

ofereceste, gloriosa

estação. Queimaram

-no meus olhos,

entre imagens. Foi

festejado, amado,

celebrado, como

se num altar,

esculpido golpe

a golpe na cegueira,

por estas mesmas

mãos, quando o

abraçaram,

ébrias, em

noites de perfume,

incenso, incêndio. Em

suas águas me perdi,

vezes sem conta,

aprendendo o inocente

despudor da entrega

confiada. Agora,

ainda sob o olhar

lúcido do amor, julgo

ter sido assim

que Ulisses viu,

abandonadas, as ruas

e praças de Ítaca,

quando regressou. E

sob as rugas das pedras

gastas e dispersas,

que haviam sido

antes sólidas, polidas

casas, muros, fontes,

templos ou estátuas,

fortalezas sobranceiras

enfrentando o azul

do mar, quis rever,

por um momento,

e talvez

no seu brilho

mais exacto, absoluto,

o que a fizera outrora

cobiça dos exércitos,

o alvo de invejas várias

de outros reinos. E

ali se deteve,

melancólico, como

se, sob o silêncio

grave, pesado,

dessa tarde,

alheado do mundo

e de navegações,

pudesse ainda ouvir,

distintamente, dele

subindo até ao ar

quente e saturado

da ilha

abandonada,

o clamor das crianças,

correndo céleres

pelas encostas

verdejantes, em

desvairadas, imprudentes

correrias.

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