Apeiron (em Noto)
Quando
abro os olhos
diante deste mar,
do azul
sem fim, eu sou
o pequeno grego
que o atravessou,
o mesmo que construiu
os templos de Alexandria
até Selinunte. Aquele
que interrogou o céu, presságios
e estrelas, enquanto frágil
embarcação o embalava. Fiz
escravos, é certo,
nem disso me arrependo,
obedecia só ao mando
dos tiranos, Théryon,
ou Hyeron, o de Siracusa. E
como Anaximandro,
que deixou tratado Sobre
a Natureza, acreditei,
contemplando o mar
imenso, ser apeiron
o princípio de tudo,
imortal e insurgido,
a matéria infinita
de que tudo se cinde. Tomei
por certo estar o mundo
ferido da injustiça, pois
se a unidade primeira
foi cindida,
sucessivamente os opostos
acedem ao governo
das coisas. Assim,
preso de estupor diante
do que existe, fui deixando
aos poucos, quase sempre
sobre pedras frágeis,
destinadas a ruir, o testemunho
da minha passagem
breve. Sabendo
necessário opor a construção
ao Caos. E que uma lei
de justiça comanda, desde
sempre, todo o Cosmos,
ainda que me seja
indecifrável.










