a língua
Quebro aqui, menino, este silêncio, que
dez burocráticos anos já dura, evitando até
esta noite memória vazia de doçura,
mas que agora só me impediria de falar
contigo. E já que és tão poeta e tão bonito,
reavivo do trauma e do algoz a língua
materna, não porque tenho algo a te dizer
mas porque a carne que lembra também
sofre de amnésia. Hoje eu quero desarticular
medo, tristeza e regra, afinar com o meu o
teu desejo, falar putaria na cama naquele
idioma que há muito abandonei, pois se a língua
do inimigo é a única que dominas que seja essa
minha vingança: treparei contigo em português.




