A curva do Mónaco
Príncipes, à noite, celebram o quê?
Ou príncipes paralelos à noite, como o rio à cidade,
amparado por dunas, rochedos, fortes, vivendas.
Pequeno oceano estático para rapazes de Lisboa.
Corações ao alto seguíamos, intocáveis, fluviais,
noctívagos, plácidos de algumas certezas
e ainda mais ambições, grandiosos ou pedestres
dependendo de fazermos ou não uma trégua irónica.
Avançamos contra as luzes em sentido contrário,
faróis destinados à capital, quem sabe
com bustos de Napoleão no banco de trás.
Tínhamos queimado a árvore da fraternidade,
a árvore abstracta, regimental, compulsória,
havia de ser diferente quando fosse a nossa vez,
não obrigaríamos ninguém a nada.
Íamos em direcção conhecida mas desconhecíamos
onde queríamos chegar, ignorávamos
os obstáculos, a tua confiança ainda não
implacável, a minha cobardia irrelevante, gentil.
Em breve a crua luz do dia talvez impeça
os disfarces: um príncipe e um monstro equivalem-se,
um jovem é um moribundo levado em ombros.
Mas a noite com seus artifícios durou um fogacho ainda.
Há um tempo para Abel e outro para Caim,
a questão dirigia-se ao futuro, como o automóvel nocturno
que se lançava à Linha e à amizade,
essa a que certamente fizemos um brinde sem malícia.
E na paz tempestuosa dos vinte anos
avisaste que à nossa frente a estrada fazia
uma guinada acidentada, fatal,
a que um príncipe trocista chamou, comovido,
a curva do Mónaco.











