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Ritual

Fecho as janelas desta casa

(seus corredores, seus fantasmas

sua aérea arquitetura de pássaro)

fecho a insônia que inundava

meu quarto debruçado sobre o nada

fecho as cortinas onde a larva

do tempo tece agora sua praga

fecho a clara algazarra plácida

das vozes sangüíneas da alvorada

fecho o trecho taciturno da tocata

a chuva percutindo as teclas do telhado

as sombras navegando pelo pátio

e o bambuzal

Fecho as torneiras da memória

Fecho também a tumultuosa torrente de vida

que poderia ter rompido o cerco das paredes

e feito explodir a argamassa de calcário e solidão

Fecho ainda as lentas pálpebras da amada

o mofo acumulado entre seus lábios

o limo que vestiu sua carne desolada

Fecho tudo e depois me fecho

Estou cansado

estou triste

estou só

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