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Poema da infância distante

A Rui Guerra

Quando eu nasci na grande casa à beira-mar,

era meio-dia e o sol brilhava sobre o Índico.

Gaivotas pairavam, brancas, doidas de azul.

Os barcos dos pescadores indianos não tinham regressado ainda

arrastando as redes pejadas.

Na ponte, os gritos dos negros dos botes

chamando as mamanas amolecidas de calor,

de trouxas à cabeça e garotos ranhosos às costas

soavam com um ar longínquo,

longínquo e suspenso na neblina do silêncio.

E nos degraus escaldantes,

mendigo Mufasini dormitava, rodeado de moscas.

Quando eu nasci...

- Eu sei que o ar estava calmo, repousado (disseram-me)

e o sol brilhava sobre o mar.

No meio desta calma fui lançada ao mundo,

já com meu estigma.

E chorei e gritei – nem sei porquê.

Ah, mas pela vida fora,

minhas lágrimas secaram ao lume da revolta.

E o Sol nunca mais brilhou como nos dias primeiros

da minha existência,

embora o cenário brilhante e marítimo da minha infância,

constantemente calmo como um pântano,

tenha sido quem guiou meus passos adolescentes,

- meu estigma também.

Mais, mais ainda: meus heterogéneos companheiros

de infância.

Meus companheiros de pescarias

por debaixo da ponte,

com anzol de alfinete e linha de guita,

meus amigos esfarrapados de ventres redondos como cabaças,

companheiros de brincadeiras e correrias

pelos matos e praias da Catembe

unidos todos na maravilhosa descoberta de um ninho de tutas,

na construção de uma armadilha com nembo,

na caça aos gala-galas e beija-flores,

nas perseguições aos xitambelas sob um sol quente de Verão...

- Figuras inesquecíveis da minha infância arrapazada,

solta e feliz:

meninos negros e mulatos, brancos e indianos,

filhos da mainata, do padeiro,

do negro do bote, do carpinteiro,

vindos da miséria do Guachene

ou das casas de madeira dos pescadores,

Meninos mimados do posto,

meninos frescalhotes dos guardas-fiscais da Esquadrilha

- irmanados todos na aventura sempre nova

dos assaltos aos cajueiros das machambas,

no segredo das maçalas mais doces,

companheiros na inquieta sensação do mistério da “Ilha dos navios perdidos”

- onde nenhum brado fica sem eco.

Ah, meus companheiros acocorados na roda maravilhada

e boquiaberta de “Karingana wa karingana”

das histórias da cocuana do Maputo,

em crepúsculos negros e terríveis de tempestades

(o vento uivando no telhado de zinco,

o mar ameaçando derrubar as escadas de madeira da varanda

e casuarinas, gemendo, gemendo,

oh inconsolavelmente gemendo,

acordando medos estranhos, inexplicáveis

das nossas almas cheias de xituculumucumbas desdentadas

e reis Massingas virados jiboias...)

Ah, meus companheiros me semearam esta insatisfação

dia a dia mais insatisfeita.

Eles me encheram a infância do sol que brilhou

no dia em que nasci.

Com a sua camaradagem luminosa, impensada,

sua alegria radiante,

seu entusiasmo explosivo diante

de qualquer papagaio de papel feito asa

no céu de um azul tecnicolor,

sua lealdade sem código, sempre pronta,

- eles encheram minha infância arrapazada

de felicidade e aventuras inesquecíveis.

Se hoje o sol não brilha como do dia

em que nasci, na grande casa,

à beira do Índico,

não me deixo adormecer na escuridão.

Meus companheiros me são seguros guias

na minha rota através da vida.

Eles me provaram que “fraternidade” não é mera palavra bonita

escrita a negro no dicionário da estante:

ensinaram-me que “fraternidade” é um sentimento belo, e possível,

mesmo quando as epidermes e a paisagem circundante

são tão diferentes.

Por isso eu CREIO que um dia

o sol voltará a brilhar, calmo, sobre o Índico.

Gaivotas pairarão, brancas, doidas de azul

e os pescadores voltarão cantando,

navegando sobre a tarde ténue.

E este veneno de lua que a dor me injectou nas veias

em noite de tambor e batuque

deixará para sempre de me inquietar.

Um dia,

o sol iluminará a vida.

E será como uma nova infância raiando para todos.

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