● Hojesexta, 12 de junhover calendário →

O sono do João

O João dorme… (Ó Maria,

Dize àquela cotovia

Que fale mais devagar:

Não vá o João, acordar…)

Tem só um palmo de altura

E nem meio de largura:

Para o amigo orangotango

O João seria… um morango!

Podia engoli-lo um leão

Quando nasce! As pombas são

Um poucochinho maiores…

Mas os astros são menores!

O João dorme… Que regalo!

Deixá-lo dormir, deixá-lo!

Calai-vos, águas do moinho!

Ó Mar! fala mais baixinho…

E tu, Mãe! e tu, Maria!

Pede àquela cotovia

Que fale mais devagar:

Não vá o João, acordar…

O João dorme, o Inocente!

Dorme, dorme eternamente,

Teu calmo sono profundo!

Não acordes para o Mundo,

Pode levar-te a maré:

Tu mal sabes o que isto é…

Ó Mãe! canta-lhe a canção,

Os versos do teu Irmão:

«Na Vida que a Dor povoa,

Há só uma coisa boa,

Que é dormir, dormir, dormir…

Tudo vai sem se sentir.»

Deixa-o dormir, até ser

Um velhinho… até morrer!

E tu vê-lo-ás crescendo

A teu lado (estou-o vendo

João! que rapaz tão lindo!)

Mas sempre, sempre dormindo…

Depois, um dia virá

Que (dormindo) passará

Do berço, onde agora dorme,

Para outro, grande, enorme:

E as pombas que eram maiores

Que João… ficarão menores!

Mas para isso, ó Maria!

Dize àquela cotovia

Que fale mais devagar:

Não vá o João, acordar…

E os anos irão passando.

Depois, já velhinho, quando

(Serás velhinha também)

Perder a cor que, hoje, tem,

Perder as cores vermelhas

E for cheiinho de engelhas,

Morrerá sem o sentir,

Isto é, deixa de dormir:

Acorda, e regressa ao seio

De Deus, que é de onde ele veio…

Mas para isso, ó Maria!

Pede àquela cotovia

Que fale mais devagar:

Não vá o João, acordar…

Textos relacionados