● Hojesexta, 10 de julhover calendário →

O mel dos Himalaias

a tarde quente

e rodeada de cordilheiras fundas

de águias aos círculos a vigiarem dos deuses

a morada

no terraço de um restaurante crudívoro

entre Sol e ruína

falto de fuminhos e estrugidos

engoli sumos grossos de fruta

esgotado das complicadas especiarias do amor

e farto da Índia que vira e não vira

um corvo

veio pousar no muro

tão mais rápido que a foto que não pude

queimou contudo o negativo

da memória que este poema revela e fixa

com o suor da viagem

aqui está — vê‑lo? — mofando

do infortúnio

aqui estou

sentado à mesa de ferro gasto

pelo sucessivo antojo do prodígio suspenso

com os dedos obscuros tocando o copo

a palhinha

diante do azar há

quase sempre um lugar de amparo

basta reconhecê‑lo

o meu não tardou a vir na forma

frágil de um apícola

que descia do lado da encosta roto e maculado

rindo‑se

parou junto às mesas pôs

no chão o pote que trazia pesado nos ombros

abriu‑o e juro

saiu de dentro uma luz de baú

pejado de riquezas

untou um galho naquilo instigou

os poucos que ali estávamos a provar

do favo

provámos

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