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O cutelo

São ossos. E às vezes, a banha amarela nos ossos;

e às vezes, o sangue vermelho nas unhas.

São porcos, ou são as cabeças dos porcos,

penduram num gancho as cabeças,

ou a cara de estúpida morte dos porcos

no vidro embaçado do açougue.

Ou o branco, mas branco embebido de rosa,

o sangue no sonho de tripas,

sonha o açougueiro: que empunha um cutelo.

E o branco avental que se banha

ou que bebe, o sangue que salta dos nervos

num abraço com ossos, onde vibra o cutelo,

e como brilha o cutelo que corta:

é essa a virtude do aço no punho, que sobe,

ou a ameaça na roda vazia que o prende

no espaço do açougue, visível aos olhos,

anúncio de corte. Ou espeta seu fio numa pedra,

e o único olho vazio se concentra, à espera da carne.

São cortes na pedra lanhada de sangue,

ou fendas, de onde a morte o espreita,

açougueiro no sonho vermelho, acariciando

o fio afiado, o sorriso sutil do cutelo,

que corta. E então o cutelo é outra coisa:

nem porcos, nem nervos, nem ossos,

nem mesmo o açougueiro que o sonha,

mas parte extensiva do braço que o vibra,

e parte indelével do que ele mutila,

o fio afiado, o sorriso sutil do cutelo, que corta.

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