● Hojesexta, 10 de julhover calendário →

Lua

Clâmides frescas, de brancuras frias,

Finíssimas dalmáticas de neve

Vestem as longas árvores sombrias,

Surgindo a Lua nebulosa e leve...

Névoas e névoas frígidas ondulam...

Alagam lácteos e fulgentes rios

Que na enluarada refração tremulam

Dentre fosforescências, calafrios...

E ondulam névoas, cetinosas rendas

De virginais, de prônubas alvuras...

Vagam baladas e visões e lendas

No flórido noivado das Alturas...

E fria, fluente, frouxa claridade

Flutua como as brumas de um letargo...

E erra no espaço, em toda a imensidade,

Um sonho doente, cilicioso, amargo...

Da vastidão dos páramos serenos,

Das siderais abóbadas cerúleas

Cai a luz em antífonas, em trenos,

Em misticismos, orações e dúlias...

E entre os marfins e as pratas diluídas

Dos lânguidos clarões tristes e enfermos,

Com grinaldas de roxas margaridas

Vagam as Virgens de cismares ermos...

Cabelos torrenciais e dolorosos

Boiam nas ondas dos etéreos gelos.

E os corpos passam níveos, luminosos,

Nas ondas do luar e dos cabelos...

Vagam sombras gentis de mortas, vagam

Em grandes procissões, em grandes alas,

Dentre as auréolas, os clarões que alagam,

Opulências de pérolas e opalas

E a Lua vai clorótica fulgindo

Nos seus alperces etereais e brancos,

A luz gelada e pálida diluindo

Das serranias pelos largos flancos...

Ó Lua das magnólias e dos lírios!

Geleira sideral entre as geleiras!

Tens a tristeza mórbida dos círios

E a lividez da chama das poncheiras!

Quando ressurges, quando brilhas e amas,

Quando de luzes a amplidão constelas,

Com os fulgores glaciais que tu derramas

Das febre e frio, dás nevrose, gelas...

A tua dor cristalizou-se outrora

Na dor profunda mais dilacerada

E das cores estranhas, ó Astro, agora,

És a suprema Dor cristalizada!...

Textos relacionados