interlúdio em forma de Pessoa
fumando inexplicavelmente versos
é que me conheço fumo
dos grandes invisíveis humanos
conheço a névoa das substâncias
mas um corpo líquido é que penso
tenho desejo de mim ao passar pelas ruas de ontem
queria ter-me entrar por mim como um verso
uma espada consciente de carne
que me dissesse que existo e sou agora
o vazio mais visível dos meus sonhos
é dessa fome que traço um caminho bífido
mais ou menos raso de raiz angústia
quando ardem versos e caminho pelas ruas de hoje
tocando apenas nos gestos avenidas de ontem
como se reconstitui um corpo de amante perdido
de pé nas escadarias dos sonhos mortos
tenho um essencial desejo dessa natureza
viva e morta que ubiquamente é eu
fumo-me para me encontrar entre essa neblina
entre a circunstância dos dedos e das rugas
consumo-me burlescamente ultraliricamente
o que me sai do genital celeste
