Desde que o Algarve é Algarve
Invade-me um silêncio
Que quase roça o incómodo
Sempre que vejo a arte
Como pretexto para reflexões
Sobre a comunidade afro-tugasup>1/sup>
Num contexto contemporâneo
Acredito que hoje
O papel de um professor
Numa sociedade urbana
É mais importante que o de um músico
Assim como a imagem de uma família
Reunida à hora do jantar
Em bairros como damaia ou cova da moura
Tem mais profundidade
que qualquer pintura ou peça teatral
A arte, provavelmente
Não é o melhor veículo para mostrar
O rosto desta Lisboa mulata.
Mas não deixo de reconhecer
Que exerce um papel fundamental
Para contrariar aqueles que continuam a achar
Que os únicos episódios de interesse
Continuam a ser os safaris e as catástrofes
Que nos chegam através dos media.
África parece que só nos informa sobre as crises
As incontáveis vitímas da última guerra civil
Sobre o número crescente de casos de HIV
Ou sobre as últimas pessoas que se afogaram
Ou foram presas quando tentavam atravessar
Depois do jantar ou nas tardes do fim de semana
Sobre as idílicas paisagens do Serengeti
Ou ainda as sumptuosas dunas do Sahara e do Namibe
As maravilhas da natural África na hora do entretenimento
E o pesadelo social africano
De uma certa verdade como disse Pep Subiros
É a verdade que desperta o interesse em buscar
Noutras capitais africanas como:
Elementos que me ajudem a compreender África:
Seus filhos; seus heróis; seus sonhos;
suas democracias; suas ditaduras; seus medos
suas Zonas Jsup>2/sup>; Seus Outros Bairrossup>3/sup> e seus Albertos
Cujos os pequenos nadas, cujas banalidades
Ou a generosidade em partilhar
Os seus sentimentos simples me fazem sorrir
Que me lembra também que por mais urbano-global
Que sejam as suas aspirações
O compromisso com o rural-local
Transmitido por outras gerações
A desenraização desta geração, que tanto se debate
Não está assente no facto
De serem de origem africana
Nem naquele velha história
Dos pais transmitirem a ideia de África.
Está antes assente num simples detalhe
Não há nada de errado em ser Afro-Luso
O perigo está em não ter consciência disso
Os brothers americanos a dada altura
Autodenominaram-se Afro-Americanos
Porque será que Malcom X defendia
Fervorosamente o regresso dos negros
Mas depois de uma viagem a África
Afirmou que América era a sua casa
Não é a cor da pele nem a saudade
Que nos faz pertencermos a determinado lugar
Nem as obras de arte têm a obrigação
Ou o dever de desencadear revoluções
Ou a pequena revolução cultural
Que tantos “afronomos”sup>4/sup> anseiam
Interessa-me, acima de tudo
Ou objecto de arte contribui ou não
O voltar ou o relembrar torna tudo mais difícil
O nosso passado foi negro ou branco
Dependendo da vista e do ponto
Só a evolução chega a ser verdadeiramente
Multiculturalismo este que observo
Em certos jovens com quem cruzo
Jovens que se parecem com Alberto
Alguns são pulassup>5/sup> até a alma
Nasceram na Alfredo da Costasup>6/sup>
Vivem em bairros como os Olivais
Falam o criolo de Santiago
Dançam kizombasup>7/sup> e kudurosup>8/sup>
Mais apaixonadamente que muitos pretos da bandasup>9/sup>
Sabem rimar e sem muita pretensões
E se calhar, sem noção disso
Estão a rescrever a história censurada
Deste país que se confunde com África
Desde que o Algarve é Algarve
(1) Afro-tuga = Afro Portugues
(2) Zona J = Complexo de edificios no Bairro de Chelas, Lisboa. = Título de um filme
portugues sobre jovens de ascendência africada que habitavam o Bairro de Chelas.
(3) Outros Bairros = Título de um documentario portugues sobre jovens de
ascendência Africana que habitam nos suburbios de Lisboa.
(4) Afronomos = Amantes da Africanidade
(6) Alfredo da Costa = Maternidade Alfredo da Costa no centro de Lisboa
(7) Kizomba = Dança de Salão dos bailes africanos
(8) Kuduro = Dança urbana criada por jovens angolanos nas ruas de Angola
(9) Banda = Giria utilisadas para demoniar Angola.
- Narração: Kalaf Epalanga
- Imagem do autor: Diana Tinoco
- Publicado no Labirinto em 20 de maio de 2026
- Curadoria de Labirinto