● Hojesexta, 10 de julhover calendário →

botânica caseira

foi no ano de magnólia, o filme

foi nesse longínquo ano em que ficámos encandeados a ver

a julianne moore a entrar e sair de farmácias para comprar morfina

e o tom cruise mais baixo que nunca num palco de onde cuspia labaredas

nesse ano distante ficámos confusos com as histórias cruzadas

ouvimos aquela música carregada de droga metálica

e regressou do nada uma jóia kitsch dos anos 70

os supertramp vinham como aliens

numa cena sentimento-pirosa

como lhes convinha

foi nesse ano nebulosa distante

no verão uma vaga de calor como não havia há 60 anos

(é o que dizem sempre)

os termómetros mantinham-se em incêndio permanente

eu emagrecera para engordar e voltar a emagrecer

tudo isto sem pensar muito

tudo isto mecanicamente

apenas para me manter a boiar à superfície da vida

a personagem mais só repetia comigo

«há um milhão de anos eu costumava ser inteligente»

oscar wilde cantava em reading

it’s not going to stop

‘til you wise up

as pessoas trabalhavam urinavam e voltavam a trabalhar

os dias seguiam em frente agarrados à flecha disparada

a magnolia grandiflora era um travesti da magnolia macrophyla

hoje vemos só bocas contorcidas

e acenamos à lombriga do tempo

arrastando-se penosamente

até ao take final

so just give up

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