a arqueologia de elêusis na idade do bronze · Tatiana Faia · Labirintoa arqueologia de elêusis na idade do bronze
daquele escritório
roubei uma vez um livro muito caro
sobre deméter e perséfone
e a arqueologia de elêusis
sabendo que o assunto era particular
e que nada valia naquele sítio
onde os livros desapareciam às vezes
devorados na cacofonia absurda
e triste de serem objectos
roubei-o para o dar a um amigo
era um amigo ainda mais pobre do que eu
isto é, tinha ainda menos dinheiro do que eu
e que de outro modo
nunca o poderia ter lido
e assim sabemos
concluíste tu
julgando que de mim percebeste alguma coisa
que és uma mulher capaz de tudo
capaz talvez de quase tudo
em teoria
como quase toda a gente
mas eventualmente não na prática
concluo eu, incerta
com a melancolia de quem na idade adulta
se procura entre algumas imagens breves
recortadas de uma juventude
que pareceu como elas às vezes parecem
uma longa série de piscinas nadadas
por um nadador que nunca aprendeu
a vir regularmente respirar à tona
com o movimento certo da cabeça
para poder deslizar suavemente
sem engolir demasiada água
que não fui eu quem roubou aquele livro
conhecemos ambos a história que envolve
o cão, a lanterna e o guarda
a chave presa num pedaço de corda
e as fulgurações das luzes
que dispararam dos sensores de movimento
quando um de nós atravessou
(qual dos dois já nem me lembro)
quando teria sido muito mais fácil
se tivesses ambos continuado
a correr separadamente para o portão
roubámos os dois aquele livro
e nenhum de nós se livra da culpa
aquele livro extraordinariamente caro
que naquele escritório ninguém
que eras um homem perigoso
capaz de quase tudo, corriges
sem dúvida um príncipe era o que queria dizer
de onde naquela louca corrida
terá vindo a nossa velocidade
a desorientação desajeitada
que vem do pânico de poder ser apanhado
será possível esquecer alguma vez
o verde nocturno do relvado
e os ramos brancos das amendoeiras
recortados contra aquela noite chuvosa
lembro-me disto de vez em quando
em quartos de hotel onde me vejo
chegando ao desaforo pelo cansaço
para lá daquele pesado portão de ferro
sorvendo sofregamente o ar
lembro-me de te ouvir rir
um riso profundo como a luz que há
às vezes na cintilação das primeiras estrelas
quando o vento varre para longe
as nuvens num céu nocturno
era um livro muito caro mesmo
e era um amigo muito belo
que amava muito aquele mito
ele sabia de cor linhas sem fim
do poema onde ele foi cantado
no dia em que lhe aparecemos
marcando com a sua voz grave
de rapaz que falava para dentro
sem hesitar cesuras e sílabas breves
na perfeita respiração de um hexâmetro
penosa mas perfeitamente aprendida
naquela métrica que em certas línguas mortas
imita a respiração da fala
quando amámos por um instante
aquele poema, naquela voz
será talvez agora a canção
o que não vale a pena dizer
o que nem devia sequer ser contado
Lisboa, 20 de Setembro de 2023
Oxford, 24 de Setembro de 2023
- Narração: Tatiana Faia
- Imagem da autora: Dirk Skiba
- Publicado no Labirinto em 18 de maio de 2026
- Curadoria de Labirinto