● Hojesexta, 10 de julhover calendário →

Ação de graças pelo desconhecido

Obrigado, Santa Rita, padroeira

dos que passam a vida

de quatro, pela graça desse menino,

mineiro de naturalidade, não

de profissão.

Ele existe, inteiriço, completo,

dorminhoco a meu lado,

enquanto o ônibus sacoleja

pela Serra do Espinhaço,

entre Curvelo e Diamantina.

Fruto do mistério violento

desse liquidificador de sangues,

ele é um triângulo de bermudas.

E aqui, com a cabeça quase a pender

sobre meu ombro, feito um dono

do mundo, ele cabeceia

no sono o nada.

Quem terão sido os dezesseis

trisavós e trinta e dois

tataravós desse campeão,

desse vencedor contra a sub

-nutrição de tantas e tamanhas

gerações raquíticas?

Quais finaram de doenças estrangeiras,

quais comeram terra no banzo,

quais mataram-se

no banalíssimo desespero quotidiano?

De quais guerras e epidemias

escaparam, ilesos

ou não, para que esse corpo

forte, descendente aperfeiçoado,

cruzasse em relativa paz

esse território pedregoso

do nosso quinhão de mundo?

Santa Rita, ele mais parece

um faraó, um tlatoani, um xá,

e eu gostaria tanto de vê-lo

interpretando Tutancâmon,

Nezahualcóyotl ou Reza Pahlavi

no meu Hollywood pessoal.

Na orelha esquerda, ele

carrega uma cruz, um brinco da Cruz,

ah! esses nossos modernismos

arcaizantes! Santa Rita, rogai

por estes pés

seminus na tanga das havaianas.

Fico toda adélia nesses prados

ao ver o que se anexa

a seus calcanhares. Dois!

Com cinco dedos cada!

Minha alegria é a perfeição

de suas unhas tão bem fabricadas,

que jamais despedaçaram presa

alguma. Seus dentes saudáveis

que rasgam a carne de outros

e que outros mataram. Eu o amo.

Não, eu não o amo. Quem

ama estranhos totais? Eu amo

estranhos totais.

Eu amo esse estranho total.

Ele não precisa saber. Meu amor

floresce nessa insciência alheia.

Se um amor cai no meio de uma serra

e ninguém o ouve cair, ainda

assim existe esse amor. O amor

é uma esquisitice

que melhor se cozinha calada, calado.

Galado está o ovo do amor.

Da orelha do rapaz pende

uma cruz

na qual crucifico-me de bom grado.

Benzadeus,

cabeça encaracolada, agradeça

seus pais, delicioso húmus futuro.

Vem ver, Adriano. Vem ver, Constantino.

Essas estátuas biodegradáveis são

meus credos e minhas cruzes,

uia, saudabilíssimo tabu,

eia, saldabilíssimo totem.

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