A fruteira e as moscas
Minha mãe cedia as frutas aos filhos
e meus irmãos e eu reivindicávamos coisas
caras demais para aquela dácada:
ameixas, pêssegos e uvas.
Meu pai dizia, com razão, que nada nos faltava:
sobre a mesa estavam as maçãs e bananas.
Do próprio quintal vinham as goiabas e acerolas
Das avós, várias espécies de manga.
A cidade era cercada por laranjais.
Não havia vitamina ou proteína
que não se dispusesse a família,
e ainda assim queríamos o que não tínhamos.
Sei hoje que tardou demais
para que eu aprendesse a lição
de amar o que está às mãos,
o que doa o clima e a terra
com seu húmus particular
do que ali morreu e doou-se.
Dourou-se, doeu-se e então se doou
as mãos de um descalço qualquer
sobre as plantas dos próprios pés
e sob os pés de frutas.
A cidade não precisava de muros
contra outras cidades inimigas
e o corpo erguia suas paliçadas
com o que se tomava de outras coisas vivas.
Não haveria gripe ou varíola