● Hojesexta, 10 de julhover calendário →

A fruteira e as moscas

Minha mãe cedia as frutas aos filhos

e meus irmãos e eu reivindicávamos coisas

caras demais para aquela dácada:

ameixas, pêssegos e uvas.

Meu pai dizia, com razão, que nada nos faltava:

sobre a mesa estavam as maçãs e bananas.

Do próprio quintal vinham as goiabas e acerolas

Das avós, várias espécies de manga.

A cidade era cercada por laranjais.

Não havia vitamina ou proteína

que não se dispusesse a família,

e ainda assim queríamos o que não tínhamos.

Sei hoje que tardou demais

para que eu aprendesse a lição

de amar o que está às mãos,

o que doa o clima e a terra

com seu húmus particular

do que ali morreu e doou-se.

Dourou-se, doeu-se e então se doou

as mãos de um descalço qualquer

sobre as plantas dos próprios pés

e sob os pés de frutas.

A cidade não precisava de muros

contra outras cidades inimigas

e o corpo erguia suas paliçadas

com o que se tomava de outras coisas vivas.

Não haveria gripe ou varíola

que nos matasse.

As laranjas, as mexericas, as tangerinas e as pocãs

eram nossa espada e nosso escudo.

Aprendíamos aos poucos as lições do adubo.

Hoje ajoelho-me e adoro o cítrico e o cíclico.

Azedume nenhum jamais apequenou o doce.

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