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trilogia das amorosas

I

Acaso poderias contentar-te com outra paixão menos ardente do que a minha?

Sóror Mariana de Alcoforado

que mão ardilosa tece

o rumo das amorosas

ardendo em paixão constante

vorazes em seu anseio

verazes no seu amar

tenazes em sua sina

que frágil tecido o seu

que as torna tão vulneráveis

que sólida trama a sua

que as faz tão impenetráveis

que estranha sua urdidura

que armadilha suas entranhas

e a violenta mordedura

das presas do seu veneno

que rara essência as perfuma

que licor denso ou que vinho

corre em suas veia e artérias

que pátera ou que cratera

as embriaga e afoga

que cimento ou que argamassa

constrói a sua ossatura

que flava flama ou que rio

as consome ou as arrasta

que sede e que fome atroz

alimentam sua busca

que nem torres e muralhas

afugentam seu assédio

e as vias mais tortuosas

as sendas mais pedregosas

não intimidam seus passos

e a noite mais tenebrosa

incita a sua coragem

que misteriosa estrutura

sustenta a sua conduta

o fio do seu novelo

a linha de sua estirpe

que ígneo astro as habita

que negro sol as concita

que maciez pisa fino

em sua pata felina

que aço mais temperado

em sua fala ferina

vem de longe a sua linhagem

em viagem ininterrupta

e mesmo partido o leme

rotos cordoalha e velame

prosseguem em seu caminho

II

Daos a tener grandes deseos, que se sacam siempre grandes provechos, aunque no se puedan poner en obra.

Santa Teresa de Ávila

amorosas lancinadas

que é feito do vosso poder

tendes furor nas entranhas

mênades amenas

que eu turvos uivos de viúvas

trincais as uvas

serpente macia brando látego

dança no ar a cabeleira

e avança a negra trança

crina e cauda ala calada

obscura raiz límpido traço

vós

que alvo não tendes em vossa tenda

e senda

e teceis ponto a ponto a delicada renda

venda no olhar travado o andar

e

sós

nadais em fino linho

e na treva do sono

o sonho indo e vindo

no vinho do encontro

áspero recontro

é nessas águas o navegar

e o vagar

de ansiedade

ebriedade

soledade

ânfora de âmbar vosso corpo guarda

à espera

o mel

erra nos muros a hera

em susto

javalis e javalinas

sucumbem às correrias

de montearia

e arrulham as rolas

alheias aos vôos de falcoaria

mas pedra é teu chão

terra despida

pedra é o piso de tuas casas

terra curtida

em sangue e flama

calcinada

tuas matas incendiadas

ou em naves transformadas

no ataque feroz

feraz o solo te recebeu

rude guerreiro

e glória cantou-se ao vencedor

enquanto

entenebrecida

carpias teus mortos

foi quando se recolheram

os feridos

e sobre as chagas

derramou-se o óleo

faminta naquele assédio

a sede secou-te o peito

e rouca

louca

no chão rolaste

entre chamas chamando

o bem-achado bem

perdido

e o vão gemido sem alento

perdeu-se no alarido

junto ao vencido

estandarte

III

On m'a dit cent fois que l'amour était une chimère et le bonheur un rêve. Je me le suis dit cent fois à moi-même. Mais tant que je me sentirai la force de désirer le bonheur et l'amour, j'aurai la force de les espérer.

George Sand

coroadas de hésperis

nadam as hespérides

em águas abissais

e a leoa com suas crias

a loba com seus cachorros

a égua com seus potros

guardam a planura

parassemas emproam tuas naves

e parassóis pluripétalos

arrogantes girassóis

cobrem teus paramentos

thalassa é teu mundo

em pélagos e périplos navegas

heráldicas aves marcam tuas insígnias

as paragnátides de teus cascos

protegem tua maxila

e sob a axila trazes domado o leão

gloriosa nike

em panejante peplo desfraldadas alas

guia teus barcos

e de imigos arcos zunem os dardos

sem os roçar

e as deusas férteis pariram deuses

e feridas por seus raios sucumbiram

assim foi transferido o poder

mas do fundo profundo

emerge tua boca

e clama e inflama

a vaga e a praia

teu hálito é brisa e chama

teus dentes cortam algas corais medusas polvos

e teus brados e braços alcançam e abraçam

o espaço que te usurparam

vitório é o equilíbrio da balança

no peso desse metal maior

massa de armilas

e armas invencíveis

profunda é tua raiz

e sabes que não te quer o que não queres

pois quando vencedores

eram vencidos os imaturos

a quem ofertavas a salva

no lodo sorveu-se o húmus

sábio olhar perpassou teu ser

e sereno passou o horizonte

fonte e ponte

para enfrentar seguro

treva e luz

penumbra e lusco-fusco

e o turvo fez-se transparente

e as mãos foram leais

essa a terra que buscavas

onde fincar tua lança

onde lançar sua semente

esse o prêmio do tempo que esperaste

tempo de penitência e propiciação

em que lutaste contra empestados ventos

e agora louva o encontro

e vive a estação dos frutos

que o tempo é de maturação

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