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Ser

O pai que não tive

hoje ainda seria moço?

O que dele em mim sobrevive

guarda a forma de um esboço?

O pai que nunca vi

será que o encontro?

Severo, louco, fora de si

ou apoiado em meu ombro?

Do pai que não tive,

dizem, herdei o rosto.

O que dele em mim vive

é signo póstumo ou oposto?

O pai que desejei

num colóquio abstrato

respondeu-me: "Nada sei"

Exilou-se em seu retrato.

O pai que não matei

culpa-me pelo antiato.

Invoca a irredutível lei,

o cumprimento do pacto.

O pai que em outros persigo

é saudade a que me entrego.

Matéria de seres tão antigos

quantos filhos dentro carrego?

O pai que procuro

sopro, essência, limite

desaparece no quarto escuro.

Curva da carne, sinais, grafite.

E nesses avanços sem volta

perde-se o filho pródigo.

Nem recordações, nem revolta

a morte é nosso único código.

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