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Poiêtikê

Para Maria de Sousa e Anabela

I

Vindo o momento, tudo aquilo que separou

ciência e poesia deixará

de existir sobre a terra.

E o mistério terá o seu quinhão

entre as coisas aceites, entre as coisas

que, parecendo sombras, mais não são

do que a graciosidade que se esquiva

àqueles que tudo querem devassar.

O maior dos mistérios é a música, disse ela.

E eu concordei.

Mas penso, às vezes, na respiração.

Por muito que a ciência nos explique

o mecanismo do pulmão, o desempenho

do oxigénio, como se refere

isto ao nosso sufoco, ao nosso anseio,

ao convulsivo sorvo da criança

que perde a protecção, que a própria mãe

expulsa de si, e será sempre alguém

precariamente vivo, alguém que deve,

segundo após segundo, abrir o peito

para que nele entre o invisível e dele saia

imediatamente o invisível?

Há, dir-se-ia, um ritmo musical

como o que enche e esvazia um instrumento,

mas estamos em presença do afogado

e do estrangulado por garrote,

em presença até mesmo do que tem

perfume nos lençóis e o conforto

de uma grande fortuna e, ainda assim,

perde a magnificência, pois não sabe,

como soube, ao ser expulso pela mãe,

o movimento da respiração.

E toda a glória do pensante é breve

e admirável.

É o repicar

de um sino na manhã:

não existente

e absolutamente poderoso.

São os feitos dos homens, é um sino,

E ela quer saber exactamente onde está o poema,

quer tocar

no nervo do poema, sem que exista

frieza ou impiedade,

sem que exista

golpe de bisturi.

Porque é um toque de delicadeza,

a materna leveza que há nos dedos

de quem levanta uma raiz, tremendo

com tudo o que ali há de irreparável,

de precioso, de finito, como o verso,

com tudo o que ali há de

desumano,

enquanto algo de fino,

de espantoso na sua vibração,

atinge o peito

e deixa as criaturas que nós somos

sob o encantamento do que ignoram.

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