● Hojesexta, 10 de julhover calendário →

O livro

De manhã, quando passei à frente da loja

o cão ladrou

e só não me atacou com raiva porque a corrente de ferro

o impediu.

Ao fim da tarde,

depois de ler em voz baixa poemas numa cadeira preguiçosa do jardim

regressei pelo mesmo caminho

e o cão não me ladrou porque estava morto,

e as moscas e o ar já haviam percebido

a diferença entre um cadáver e o sono.

Ensinam-me a piedade e a compaixão

mas que posso fazer se tenho um corpo?

A minha primeira imagem foi pensar em

pontapeá-lo, a ele e às moscas, e gritar:

Venci-te.

Continuei o caminho,

o livro de poesia debaixo do braço.

Só mais tarde pensei, ao entrar em casa:

não deve ser bom ter ainda a corrente

de ferro em redor do pescoço

depois de morto.

E ao sentir a minha memória lembrar-se do coração,

esbocei um sorriso, satisfeito.

Esta alegria foi momentânea,

olhei à volta:

tinha perdido o livro de poesia.

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