Nathaly
é válido não pensar no
horror
dos cadáveres, dos pulmões encharcados, das gargantas empaladas,
dos futuros corpos na fila de espera
boiando aos milhares num ano que não tem nome
vinte vinte
ano zero
sem meses, é o mesmo
dia
de solidão e luto
(solitário também)
é válido, neste cemitério de horas,
(é a mesma, ali mais escura, depois mais clara)
conjurar a vertigem
em brasa
(um pôr do sol doendo uma moeda)
dos espelhos baratos que avizinham cítricos os nossos reflexos
(lamber a superfície gelada e saber
quanto tempo ainda)
é válido dizer, em meio à peste,
— arde!
e então a queda
um golpe
uma fruta madura.