Lugar reservado
Mesmo que durante o comboio
passe em revista o coração,
subo a plataforma inclinada
e se olho é nunca
em frente, nunca para baixo.
O meu lugar está reservado
e sei há muito: um pé
verdadeiro não é nosso,
serve apenas à dor, se for preciso
lembrarmo-nos de que a existência.
O melhor pé que temos é cada passo:
sabe sempre o caminho,
o degrau seguro, invisível e escuro,
transparente, sujo por todos os outros,
nunca fomos nós.
Valido o meu bilhete e amores antigos,
tenho dúvidas diárias, sono e a música
que ainda cabe.
Espreito sem medo ou lentes
a revista dos outros passageiros,
jornais gratuitos,
histórias de pessoas sem pés,
sapatos duplos, meias de vidro,
uma mulher sofre de silêncio
porque lhe mudei a partícula,
silenciosa e agora quase poética,
nunca a vi antes desta paragem.
