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Jardim botânico (1.)

Aqui os nomes das plantas

crescem no lugar das plantas.

A natureza que te deram

essa é tua herança

melhor pedir logo por ela.

No lugar da floresta, uma mísera pitangueira.

Quando memórias vierem

no miado de um gato

sentado em teu colo, alma

reencarnada de um amigo

não lembra desse amigo

pergunta pelos rios de água preta.

Pergunta pelas bolhas na garrafa de água mineral.

Essa a tua herança, a jangada de garrafas pet

azul turquesa sobre azul turquesa

tentando chegar à Grécia

ou o calombo no tronco da nogueira

no Leblon, fugindo aos espinhos de vidro

atrás de um pouco de luz.

A natureza que te deram, não Pitágoras.

Quando abraçar Maria, minha cachorra

não pensarei em minha mãe, que suspeito

viva dentro dela nos dias calmos

nem em minha avó, que suspeito

viva dentro dela quando o céu desaba

em trovoadas escuras sobre São Paulo

e Maria, a mijona

protesta contra a existência mesma das coisas

com toda a força da sua bondade.

Ela mija de alegria quando você coca a sua pança

mas destrói uma porta com as unhas

de raiva, não de medo

de raiva da tempestade.

Não pensarei em como meu pai a levaria ao veterinário

desgostoso por perder uma tarde inteira

ao invés de ficar em casa lendo Tintim e Racine, meio

deprimido.

A natureza que te deram, não Iphigénie, Phèdre.

O alumínio fino, cortado em espiral, de uma lata de coca-cola

preso ao chifre de um búfalo, na ilha de Marajó.

Ou os pássaros que sabem exatamente em que poste pousar

vindos da Patagônia, no meio do Canadá, a câmera na asa

ou os coiotes que comem os gatos selvagens

que comem os gatos domésticos

que comem os ratos envenenados pelos donos dos gatos

domésticos

num subúrbio de Los Angeles.

Pensa nos podcasts, onde isso tudo vai parar.

Na guerra civil de vozes, em que ninguém gagueja.

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