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é o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho

                                                 Hoje sou eu quem como o rio transluz

Hoje sou eu quem sem primícias seca/em>

Luiza Neto Jorge

é o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho.

pergunto pelos barcos e não me respondem. ninguém sabe

é o tempo diluído nas camas brancas dos amantes sem resposta

dos rápidos amantes que lembram duas balas no sangue arrefecido.

perguntei aos amantes pela cidade dos barcos no rio.

ninguém sabe. ninguém sabe da cidade com mar nos dedos

aquela que sobe pelo peito fácil das casas feitas do cheiro matinal

dos gritos e do amor rápido e sanguíneo e sedento. é talvez a hora

de romper por entre os barcos que estão nos portos sombrios

sombrios abutres de marinheiros sem literatura.

não me contaram dos barcos como num poema

nem de rostos varridos pelas musicas de cítaras antigas.

no Tejo escorria de vermelho-sangue um sabre só encontrei

o azul e o branco estagnados da parte velha da cidade do fado.

o rio calado e os seus barcos e tu a subires a rua nova do alecrim

pelo menos nos meus olhos era essa rua de cesário e eu a respirar

o mesmo ar de asfixia ou a tentar não naufragar nestas águas pantanosas

nestas vielas obscuras nesses barcos de madeira ao sol já corrompida

onde ainda adivinhamos o rio Tejo e as sete colinas gravados

onde o amor foi perpetrado (na memória tentacular do mar)

e era ainda o Tejo

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