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Conversa de fim de tarde depois de três anos no exílio

Os garçons empilhando as cadeiras

você me olhando e me pedindo que

fale Por Favor Fale Mas Não Escreva

eu evitando o toque ruim dos ponteiros

do relógio que anuncia a já famosa fuga

de nossos corpos cada um para sua

ponta da cidade - se nosso amor fosse

revólver eu seria o cabo e você a mira

tal como dizia a professora Sofia Jones

é terrível a existência de duas retas

paralelas porque elas nunca se cruzam

e elas apenas se encontram no infinito

a verdade é que nunca nos interessou

a questão do infinito mas o resto

das ideias matemáticas claro que sim

eu na verdade prefiro mais de mil vezes

sua chávena de chá ficando fria sobre a mesa

enquanto você fala sobre raízes quadradas

enquanto você fala sobre ladrões de figos

enquanto você fala sobre o tropeço da baleia

subitamente eu já nem sei sobre o que você fala

porque a forma como seu dente incisivo corta

e suspende toda a beleza da cafetaria

faz com que eu novamente entenda que

pelo sétimo dia é chegada a hora do cuco

e do canto do cuco

portanto eu pego minha bicicleta

e como de costume você faz meu retrato

de cabelo todo desenhado no vento

em jeito de menino que está sempre indo embora

à mesma hora e que amanhã se tudo der certo

voltará à mesma hora para o mesmo amor

a mesma mesa a mesma explosão

com toda a certeza a mesma fuga

porque você e eu a gente é feito de matéria

escorregadia, i.e., manteiga, azeite, geléia

e espanto.

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