Cadáver-consolo
Não, cadáver-consolo, não vou me repastar contigo, Desesper-
o, nem desligar – por lassos – os últimos laços de homem em mim,
Nem, por mais desvalido, gritar não posso mais. Eu posso, sim,
Posso algo, esperança, ânsia de aurora, não escolher não ser.
Mas ah! mas, tu, terrível, por que rude em mim crescer
Teu destro pé de pedra pune-universo? leão-látego assim
Varar com olhos trevorantes meus pisados ossos e até o fim
Trovão-troar-me a mim, empilhado aqui, no frenesi de fugir de ti e te esquecer?
Por que? para que a minha palha voe; o meu grão, claro e puro, jaza,
Pois que em meio à tortura e à tortura eu (parece) beijei o açoite,
Ou mão, então, meu coração em cor-vigor, riso-roubado, a festejar se compraza.
Festejar quem, porém? o herói que me céuaçoitou, o pé que se abateu s-
obre mim? ou eu que luto? ou qual? ou ambos? Naquele ano, aquela noite,
Brasa no escuro em que eu, mísero, medi-me com (meu Deus!) meu Deus.
tradução de Augusto de Campos