● Hojesexta, 10 de julhover calendário →

Cacos de vidro

recolho de manhã cacos de copos quebrados.

recolho minuciosamente com atenção de relojoeiro.

primeiro os cacos grandes ainda manchados por algum líquido notívago.

depois os menores e os mais dispersos até que restem

no piso frio apenas fiapos de vidro translúcidos.

fios de uma transparência insustentável e que me diz respeito.

recolho-os a mão um a um alheio a pás e vassouras.

recolho-os atentamente. preciso chegar muito perto

para vê-los pressionados contra a ponta dos dedos.

tão sutis e temerários que preciso esfregar-me com cuidado

as mãos. sem notar que de sua delgada argúcia já penetraram

na carne. como pensamentos indesejados cravaram-se entre as fibras

entre as veias seixos brilhantes de onde o sangue jorra

com o qual não se mistura. infensos à aflição ou à cólera. fortalecidos

pela força que pretenderia estancar sua abrupta

relação com a vida

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