Cacos de vidro
recolho de manhã cacos de copos quebrados.
recolho minuciosamente com atenção de relojoeiro.
primeiro os cacos grandes ainda manchados por algum líquido notívago.
depois os menores e os mais dispersos até que restem
no piso frio apenas fiapos de vidro translúcidos.
fios de uma transparência insustentável e que me diz respeito.
recolho-os a mão um a um alheio a pás e vassouras.
recolho-os atentamente. preciso chegar muito perto
para vê-los pressionados contra a ponta dos dedos.
tão sutis e temerários que preciso esfregar-me com cuidado
as mãos. sem notar que de sua delgada argúcia já penetraram
na carne. como pensamentos indesejados cravaram-se entre as fibras
entre as veias seixos brilhantes de onde o sangue jorra
com o qual não se mistura. infensos à aflição ou à cólera. fortalecidos
pela força que pretenderia estancar sua abrupta
relação com a vida
