● Hojesexta, 10 de julhover calendário →

A Bela Adormecida

Alguém dorme, respira,

Com o frio da mente a debruar-lhe o corpo

E os cegos desejos de si arredados.

Alguém a quem eu não diria palavras

que não fossem tardias e ausentes

como as da poesia.

Alguém que, como tu, me vai esquecer.

Alguém respira, o corpo contra a treva,

as palavras do esquecimento como faúlhas acesas

no coração da morte.

Dorme, silencia

- e quem irá depositar mais palavras

sobre as nossas cinzas?

Inventasse eu a noite, que ainda assim me esquecerias!

Desse-te eu todas as palavras que sobram do fim do mundo,

a ternura estremecida, a música mais leve –

- nada poderemos fazer. Deita-te ao meu lado.

O filme parou. As bobines giram no vazio

e só a luz fria arde sobre a tela. Amor que a nenhum amado

amor perdoa. A nenhum amado.

Esta mesma noite tu me irás esquecer.

Textos relacionados